sábado, 11 de agosto de 2007

Jesus - o incômodo silêncio da história

Quem é que nunca ouviu falar de Jesus de Nazaré? É claro que todo mundo ouviu falar de Jesus. A Bíblia nos diz que sua fama se espalhou por toda a Palestina e Síria. Ele é o homem-deus/salvador do mundo que realizou milagres que só um deus poderia realizar. Transformou água em vinho, alimentou milhares de pessoas com apenas alguns pedaços de pão e peixe, andou sobre as águas, acalmou tempestades, curou cegos, surdos e enfermos, recuperou mãos atrofiadas, expulsou demônios e ressuscitou os mortos. Seus ensinamentos morais são considerados superiores a tudo o que já foi ensinado.
Ele foi rejeitado por seu próprio povo, os judeus, e brutalmente crucificado pelos romanos. Mas isto não deteve Jesus. A Bíblia nos diz que, ao ser crucificado, céus e terra confirmaram sua divindade, causando um eclipse do sol de 3 horas em toda a terra, um terremoto que fez com que a cortina do templo em Jerusalém se rasgasse ao meio e que túmulos se abrissem e homens santos ressuscitassem e aparecessem às pessoas em Jerusalém. Três dias depois, o Filho de Deus derrotou o Diabo, o príncipe das trevas, ressuscitou dos mortos, apareceu a seus discípulos e então subiu aos céus. Como é possível alguém não gostar desta história nem desejar acreditar nela?
O problema que pesquisadores sinceros e com mentes objetivas têm com esta história espantosa é: por que os registros históricos de escritores gregos, romanos e judeus não cristãos praticamente não dizem nada sobre Jesus de Nazaré? Por que os registros romanos mencionam Pilatos, Caifás e Anás, mas ignoram Jesus e seus milagres? Certamente que notícias sobre acontecimentos como esses, se fossem verdadeiras, teriam se espalhado por todo o mundo mediterrâneo. E, no entanto, os escritos que sobreviveram, de uns 35 a 40 observadores independentes durante os primeiros 100 anos que se seguiram à suposta crucificação e ressurreição de Jesus, praticamente não confirmam nada. Estes autores eram respeitados, viajados, sabiam se expressar, observavam e analisavam os fatos, eram os filósofos, poetas, moralistas e historiadores daquela época. Entre as mais destacadas personalidades que não mencionam Jesus, temos:
Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) — Um dos mais famosos autores romanos sobre ética, filosofia e moral e um cientista que registrou eclipses e terremotos. As cartas que teria trocado com Paulo se revelaram uma fraude, mais tarde.
Plínio, o velho (23 d.C. – 79 d.C.) — História natural. Escreveu 37 livros sobre eventos como terremotos, eclipses e tratamentos médicos.
Quintiliano (39 d.C. – 96 d.C.) — Escreveu “Instituio Oratio”, 12 livros sobre moral e virtude.
Epitectus (55 d.C. – 135 d.C.) — Ex-escravo que se tornou renomado moralista e filósofo e escreveu sobre a “irmandade dos homens” e a importância de se ajudarem os pobres e oprimidos.
Marcial (38 d.C. – 103 d.C.) — Escreveu poemas épicos sobre as loucuras humanas e as várias personalidades do império romano.
Juvenal (55 d.C. – 127 d.C.) — Um dos maiores poetas satíricos de Roma. Escreveu sobre injustiça e tragédia no governo romano.
Plutarco (46 d.C. – 119 d.C.) — Escritor grego que viajou de Roma a Alexandria. Escreveu “Moralia”, sobre moral e ética.
Três romanos cujos escritos contêm referências mínimas a Cristo, Cresto ou cristãos:
Plínio, o jovem (61 d.C. – 113 d.C.) — Foi proconsul da Bitínia (atual Turquia). Numa carta ao imperador Trajano, em 112 d.C., pergunta o que fazer quanto aos cristãos que “se reúnem regularmente antes da aurora, em dias determinados, para cantar louvores a Cristo como se ele fosse um deus”. Uns oitenta anos depois da morte de Jesus, alguém estava adorando a um Cristo (messias, em hebraico)! Entretanto, nada se diz sobre se este Cristo era Jesus, o mestre milagreiro que foi crucificado e ressuscitou na Judéia ou se um Cristo mitológico das religiões pagãs de mistério. O próprio Jesus teria dito que haveria muitos falsos Cristos, portanto a afirmação de Plínio não contribui em muito para demonstrar que o Jesus de Nazaré existiu.
Ele também diz que "a carne das vítimas dos sacrifícios está sendo vendida por toda a parte". Que vítimas são essas? Mesmo que sejam animais, não tem nada a ver com o cristianismo. 
Suetônio (69 d.C. – 122 d.C.) — Em “A vida dos imperadores”, com a história de 11 imperadores, ele conta, em 120 d.C., sobre o imperador Cláudio (41 d.C. – 54 d.C.), que ele “expulsou de Roma os judeus que, sob a influência de Cresto, viviam causando tumultos”. Quem é Cresto? Não há menção a Jesus. Seria este Cresto um agitador judeu, um dos muitos falsos messias, ou um Cristo mítico? Este trecho não prova nada sobre a historicidade de um Jesus de Nazaré.
Tácito (56 d.C. – 120 d.C.) — Famoso historiador romano. Seu “Annuals”, referente ao período 14-68 d.C., Livro 15, capítulo 44, escrito por volta de 115 d.C., contém a primeira referência a Cristo como um homem executado na Judéia por Pôncio Pilatos. Tácito declara que “Cristo, o fundador, sofreu a pena de morte no reino de Tibério, por ordem do procurador Pôncio Pilatos”. Os estudiosos apontam várias razões para se suspeitar de que este trecho não seja de Tácito nem de registros romanos, e sim uma inserção posterior na obra de Tácito:
  1. A referência a Pilatos como procurador seria apropriada na época de Tácito, mas, na época de Pilatos, o título correto era “prefeito”.
  2. Se Tácito escreveu este trecho no início do segundo século, por que os Pais da Igreja, como Tertuliano, Clemente, Orígenes e até Eusébio, que tanto procuraram por provas da historicidade de Jesus, não o citam?
  3. Tácito só passa a ser citado por escritores cristãos a partir do século 15.
O que é claro e indiscutível é que um período de 80 a 100 anos sem nenhum registro histórico confiável, depois de fatos de tal magnitude, é longo o bastante para levantar suspeitas. Além do mais, é insuficiente citar três relatos tão curtos e tão pouco informativos para provar que existiu um messias judeu milagreiro chamado Jesus que seria Deus em forma humana, foi crucificado e ressuscitou.
Há três autores judeus importantes do primeiro século:
Philo-Judaeus (15 a.C. – 50 d.C.) — de Alexandria, era um teólogo-filósofo judeu que falava grego. Ele conhecia bem Jerusalém porque sua família morava lá. Escreveu muita coisa sobre história e religião judaica do ponto de vista grego e ensinou alguns conceitos que também aparecem no evangelho de João e nas epístolas de Paulo. Por exemplo: Deus e sua Palavra são um só; a Palavra é o filho primogênito de Deus; Deus criou o mundo através de sua palavra; Deus unifica todas as coisas através de sua Palavra; a Palavra é fonte de vida eterna; a Palavra habita em nós e entre nós; todo julgamento cabe à Palavra; a Palavra é imutável.
Philo também ensinou sobre Deus ser um espírito, sobre a Trindade, sobre virgens que dão à luz, judeus que pecam e irão para o inferno, pagãos que aceitam a Deus e irão para o céu e um Deus que é amor e perdoa. Entretanto, Philo, um judeu que viveu na vizinha Alexandria e que teria sido contemporâneo a Jesus, nunca menciona alguém com este nome nem nenhum milagreiro que teria sido crucificado e depois ressuscitou em Jerusalém, sem falar em eclipses, terremotos e santos judeus saindo dos túmulos e andando pela cidade. Por que? O completo silêncio de Philo é ensurdecedor!
Flavius Josephus (37 d.C. – 103 d.C.) — era um fariseu que nasceu em Jerusalém, vivia em Roma e escreveu “História dos judeus” (79 d.C.) e “Antiguidades dos judeus” (93 d.C.). Apologistas cristãos (defensores da fé) consideram o testemunho de Josephus sobre Jesus a única evidência garantida da historicidade de Jesus. O testemunho citado se encontra em “Antiguidades dos judeus”. Ao contrário dos apologistas, entretanto, muitos estudiosos, inclusive os autores da Encyclopedia Britannica, consideram o trecho “uma inserção posterior feita por copistas cristãos”. Ele diz que:
“Naquele tempo, nasceu Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns gregos, Era o Cristo. Sendo acusado por nossos chefes, do nosso país ante Pilatos, este o fez sacrificar. Seus seguidores não o abandonaram nem mesmo após sua morte. Vivo e ressuscitado, reapareceu ao terceiro dia após sua morte, como o haviam predito os santos profetas, quando realiza outras mil coisas milagrosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que usa.”
Por que este trecho é considerado uma inserção posterior?
  1. Josephus era um fariseu. Só um cristão diria que Jesus era o Cristo. Josephus teria tido que renunciar às suas crenças para dizer isto, e Josephus morreu ainda um fariseu.
  2. Josephus costumava escrever capítulos e mais capítulos sobre gente insignificante e eventos obscuros. Como é possível que ele tenha despachado Jesus, uma pessoa tão importante, com apenas algumas frases?
  3. Os parágrafos antes e depois deste trecho descrevem como os romanos reprimiram violentamente as sucessivas rebeliões judaicas. O parágrafo anterior começa com “por aquela época, mais uma triste calamidade desorientou os judeus”. Será que “triste calamidade” se refere à vinda do “realizador de mil coisas milagrosas” ou aos romanos matando judeus? Esta suposta referência a Jesus não tem nada a ver com o parágrafo anterior. Parece mais uma inclusão posterior, fora de contexto.
  4. Finalmente, e o que é ainda mais convincente, se Josephus realmente tivesse feito esta referência a Jesus, os Pais da Igreja pelos 200 anos seguintes certamente o teriam usado para se defender das acusações de que Jesus seria apenas mais um mito. Contudo, Justino, Irineu, Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes nunca citam este trecho. Sabemos que Orígenes leu Josephus porque ele deixou textos criticando Josephus por este atribuir a destruição de Jerusalém à morte de Tiago. Aliás, Orígenes declara expressamente que Josephus, que falava de João Batista, nunca reconheceu Jesus como o Messias (”Contra Celsum”, I, 47).
Não somente a referência de Josephus a Jesus parece fraudulenta como outras menções a fatos históricos em seus livros contradizem e omitem histórias do Novo Testamento:
  1. A Bíblia diz que João Batista foi morto por volta de 30 d.C., no início da vida pública de Jesus. Josephus, contudo, diz que Herodes matou João durante sua guerra contra o rei Aertus da Arábia, em 34 – 37 d.C.
  2. Josephus não menciona a celebração de Pentecostes em Jerusalém, quando, supostamente: judeus devotos de todas as nações se reuniram e receberam o Espírito Santo, sendo capazes de entender os apóstolos cada qual em sua própria língua; Pedro, um pescador judeu, se torna o líder da nova igreja; um colega fariseu de Josephus, Saulo de Tarso, se torna o apóstolo Paulo; a nova igreja passa por um crescimento explosivo na Palestina, Alexandria, Grécia e Roma, onde morava Josephus. O suposto martírio de Pedro e Paulo em Roma, por volta de 60 d.C., não é mencionado por Josephus. Os apologistas cristãos, que depositam tanta confiança na veracidade do testemunho de Josephus sobre Jesus, parecem não se importar com suas omissões posteriores.
A Encyclopedia Britannica afirma que os cristãos distorceram os fatos ao enxertar o trecho sobre Jesus. Isto é verdade? Eusébio (265-339 d.C.), reconhecido como o “Pai da história da Igreja” e nomeado supervisor da doutrina pelo imperador Constantino, escreve em seu “Preparação do evangelho”, ainda hoje publicado por editoras cristãs como a Baker House, que “às vezes é necessário mentir para beneficiar àqueles que requerem tal tratamento”. Eusébio, um dos cristãos que mais influenciou a história da Igreja, aprovou a fraude como meio de promover o cristianismo! A probabilidade de o cristianismo de Constantino ser uma fraude está diretamente relacionada à desesperada necessidade de encontrar evidências a favor da historicidade de Jesus. Sem o suposto testemunho de Josephus, não resta nehuma evidência confiável de origem não cristã.
Justus de Tiberíades é o terceiro escritor judeu do primeiro século. Seus escritos foram perdidos, mas Photius, patriarca de Constantinopla (878-886 d.C.), escreveu “Bibleotheca”, onde ele comenta a obra de Justus. Photius diz que “do advento de Cristo, das coisas que lhe aconteceram ou dos milagres que ele realizou, não há absolutamente nenhuma menção (em Justus)”. Justus vivia em Tiberíades, na Galiléia (João 6:23). Seus escritos são anteriores às “Antiguidades” de Josephus, de 93 d.C., portanto é provável que ele tenha vivido durante ou imediatamente após a suposta época de Jesus, mas é notável que nada tenha mencionado sobre ele.
A literatura rabínica seria logicamente o outro lugar para se pesquisar a historicidade de Jesus de Nazaré. O Novo Testamento alega que Jesus é o cumprimento da profecia judaica sobre o messias, crucificado no dia da Páscoa. Naquele dia, supostamente houve um terremoto em Jerusalém, a cortina de seu templo se rasgou de alto a baixo, houve um eclipse do sol, santos judeus ressuscitaram e andaram pela cidade. Três dias depois, Jesus ressuscitou e depois subiu aos céus diante de todos. Algum tempo depois, no dia de Pentecostes, os judeus de várias nações se reuniram e viram o Espírito Santo descer na forma de línguas de fogo; a igreja cristã se expandiu de forma explosiva entre judeus e pagãos, com sinais e milagres acontecendo por toda a parte. Em 70 d.C., Jerusalém foi cercada pelos romanos, que destruíram Israel como nação e dispersaram os judeus.
Ainda que os rabinos não aceitassem Jesus como o Messias, o impacto dos acontecimentos à volta de Jesus logicamente teria sido registrado nos comentários ao Talmud (os midrash). A história e a tradição oral dos judeus registradas nos midrash foram atualizadas e receberam sua forma final pelo rabino Jehudah ha-Qadosh por volta de 220 d.C. Em seu livro “O Jesus que os judeus nunca conheceram”, Frank Zindler diz que não há uma única fonte rabínica da época que fale da vida de um falso messias do primeiro século, dos acontecimentos envolvendo a crucificação e ressurreição de Jesus ou de qualquer pessoa que lembre o Jesus do cristianismo.
Não há locais históricos na Terra Santa que confirmem a historicidade de Jesus de Nazaré. Monges, padres e guias turísticos que levam peregrinos cristãos (aceitam-se doações) aos locais dos acontecimentos descritos na Bíblia dificilmente podem ser considerados pessoas isentas. Ainda citando Zindler, “Não há confirmação não tendenciosa desses locais.” Nazaré não é mencionada nem uma vez no Antigo Testamento. O Talmud cita 63 cidades da Galiléia, mas não Nazaré. Josephus menciona 45 cidades ou vilarejos da Galiléia, mas nem uma vez cita Nazaré. Josephus menciona Japha, que é um subúrbio da Nazaré de hoje. Lucas 4:28-30 diz que Nazaré tinha uma sinagoga e que a borda da colina sobre a qual ela tinha sido construída era alta o suficiente para que Jesus morresse se o tivessem realmente jogado lá de cima. Contudo, a Nazeré de nossos dias ocupa o fundo de um vale e a parte de baixo de uma colina. Não há “topo de colina”. Além disso, não há nenhum vestígio de sinagogas do primeiro século. Orígenes (182-254 d.C.), que viveu em Cesaréia, a umas 30 milhas da atual Nazaré, também não fala em Nazaré. A primeira referência à cidade surge em Eusébio, no século 4. O melhor que podemos imaginar é que Nazaré só surgiu depois do século 2. Esta falta de evidência histórica parece ser a explicação para o fato de não haver nenhuma menção a Nazaré em nenhum registro, de nenhuma origem não cristã. Ou seja, Nazaré não existia no primeiro século.
Não há tempo nem espaço para se falar de outras cidades significativas citadas no Novo Testamento, mas as evidências históricas e arqueológicas quanto a Cafarnaum (mencionada 16 vezes no N.T.) e Betânia, ou o Calvário, são, assim como no caso de Nazaré, igualmente fracas e até mesmo desmentem as Escrituras.
Mentes críticas e objetivas se destacam por procurar confirmação imparcial dos supostos fatos. Quando a única evidência disponível de um acontecimento ou de seus resultados é, não apenas questionável e suspeita, mas também aquilo que os divulgadores do acontecimento ou resultado querem que você acredite, convém desconfiar. O fato é que os escritores judeus não-cristãos, gregos e romanos das décadas que se seguiram à suposta crucificação e ressurreição de Jesus nada dizem sobre ninguém chamado Jesus de Nazaré. Uma pessoa justa sempre estará disposta a analisar novas evidências, mas, 2 mil anos depois, o cristianismo continua tendo tantas evidências imparciais sobre Jesus quanto sobre o Mágico de Oz, Zeus ou qualquer um dos muitos deuses-redentores daquela época.

Referências

  • “The Jesus the Jews Never Knew” por Frank R. Zindler
  • Encyclopedia Britannica
  • “Deconstructing Jesus” por Robert Price, Ph.D.
  • Obras completas de Josephus, tradução de William Whiston, Ph.D.
  • “The Jesus Puzzle” por Earl Doherty
  • “The Jesus Mysteries” por Timothy Freke e Peter Gandy
Autor: Lee Salisbury
Tradução: Fernando Silva
Fonte: http://dissidentvoice.org/Oct04/Salisbury1012.htm

sábado, 23 de junho de 2007

A "permanência" da Bíblia e a "indecisão" da ciência

Dizem os crentes que a Bíblia é superior à ciência porque nunca muda, enquanto que a ciência "não se decide" e a toda hora inventa novas explicações para as coisas.
Não percebem eles que quem nunca muda de ideia é burro, teimoso ou encontrou uma verdade (e nada é verdade até que se prove).

Mudar de ideia quando se encontra um erro é evoluir. Agarrar-se a velhas ideias sem se atrever a questioná-las é permanecer estagnado.
Foi mudando constantemente de ideia que a ciência nos trouxe das cavernas à civilização moderna.
Foi mudando de ideia (e ignorando a moralidade fossilizada da Bíblia) que a sociedade abandonou práticas como a escravidão e o tratamento das mulheres como seres inferiores.

Além disto, a Bíblia, além de ter várias versões, tem também milhares de interpretações, dando origem a outras tantas seitas, e são as interpretações que interessam.

Os que dizem seguir a Bíblia, "palavra imutável e inerrante de Deus", estão, na verdade e sem perceber, seguindo suas próprias opiniões e preconceitos, embora usem a Bíblia para legitimar-se.
Isto torna a tal "palavra de Deus" tão mutável e adaptável quanto a ciência, com a desvantagem de que, cedo ou tarde, cientistas acabam entrando num acordo sobre novas teorias, o que nunca foi o caso da religião.

É preciso lembrar também que a ciência produz resultados práticos: automóveis, aviões, televisão, celulares, computadores, as vacinas e toda a medicina moderna. As teorias por trás destes avanços podem estar incompletas e até incorretas, mas os resultados são reais.

E a religião, o que nos trouxe de palpável? O que mudaria em nossas vidas para pior se ela desaparecesse?
Milhares de religiões já se foram, muitas sem deixar vestígios, muitas outras terão o mesmo fim e a humanidade seguirá em frente.

"Respeite quem procura a verdade, desconfie de quem diz que a encontrou".

domingo, 14 de janeiro de 2007

Ateísmo - 10 mitos e 10 verdades


O termo "ateísmo" tornou-se tão estigmatizado nos EUA que ser ateu virou um total impedimento para uma carreira política, por exemplo. Segundo pesquisa da revista Newsweek, apenas 37% dos americanos votariam num ateu para presidente. É normal nos EUA, onde 87% da população diz "nunca duvidar" da existência de Deus e imagina que ateus são intolerantes, imorais e cegos para a beleza da natureza. Em vista disso, é importante derrubar mitos. Este artigo foi publicado originalmente no jornal Los Angeles Times.

IGNORÂNCIA DOS BENEFÍCIOS

Diz-se que os ateus ignoram o fato de que a religião é benéfica para a sociedade. Os que sublinham isso parecem nunca perceber que tais efeitos não conseguem demonstrar a verdade de nenhuma doutrina religiosa. Além disso, na maioria dos casos, parece que a religião dá às pessoas más razões para se comportar bem. O que é mais moral:ajudar os pobres por se preocupar com seu sofrimento ou ajudá-los por acreditar que o Criador quer que você o faça e o recompensará por fazê-lo ou o punirá por não fazê-lo?

SEM BASE MORAL

Alegam que o ateísmo não oferece base para a moralidade. Se uma pessoa ainda não entendeu que a crueldade é errada, não descobrirá isso lendo a Bíblia ou o Alcorão - já que esses livros transbordam de celebrações da crueldade, tanto humana quanto divina. Não tiramos nossa moralidade da religião. Decidimos o que é bom recorrendo a intuições morais embutidas em nós e refinadas por milhares de anos de reflexão sobre as causas e possibilidades da felicidade humana.

NÃO VÊEM SENTIDO NA VIDA

Pelo contrário: são os religiosos que se preocupam freqüentemente com a falta de sentido da vida e imaginam que ela só pode ser redimida pela promessa da felicidade eterna no além. Os ateus tendem a ser bastante seguros quanto ao valor da vida. A vida é imbuída de sentido ao ser vivida de modo real e completo. Nossas relações com aqueles que amamos têm sentido agora; não precisam durar para sempre para tê-lo.

CULPADOS POR CRIMES

As pessoas de fé alegam com freqüência que crimes de Hitler, Stalin e Mao foram produto inevitável da descrença. Mas o problema do fascismo e do comunismo é que são parecidos demais com religiões. Regimes assim são dogmáticos ao extremo e originam cultos à personalidade indistinguíveis da adoração religiosa. Campos de extermínio não são exemplos do que acontece quando os seres humanos rejeitam o dogma religioso; são exemplos do dogma político, racial e nacionalista.

ARROGÂNCIA

Quando os cientistas não sabem alguma coisa, eles admitem. Na ciência, fingir saber o que não se sabe é falha grave. Mas isso é o sangue vital da religião. Uma das ironias do discurso religioso é a freqüência com que as pessoas de fé se vangloriam de sua humildade e, ao mesmo tempo, alegam saber fatos sobre cosmologia, química e biologia que nenhum cientista conhece. Quando consideram questões sobre a natureza do cosmos, ateus tendem a buscar suas opiniões na ciência. Isso não é arrogância. É honestidade intelectual.

PAPEL NA CIÊNCIA

Há quem diga que o ateísmo não tem ligação com a ciência. Embora seja possível ser um cientista e ainda acreditar em Deus, não há dúvida de que um envolvimento com o pensamento científico tende a corroer, e não a sustentar, a fé. Tomando a população dos EUA como exemplo: quase 90% do público em geral acredita num deus pessoal, mas 93% dos membros da Academia Nacional de Ciências não acreditam.

FECHADOS À ESPIRITUALIDADE

Nada impede os ateus de experimentarem o amor, o êxtase, o arrebatamento e o temor. O que eles não tendem a fazer são afirmações injustificadas sobre a natureza da realidade com base nessas experiências. Não há dúvida de que alguns cristãos mudaram suas vidas para melhor lendo a Bíblia e rezando. O que isso prova? Prova que certas regras e códigos de conduta podem exercer um efeito profundo sobre a mente humana. Tais experiências positivas dos cristãos sugerem a existência de Deus? Nem remotamente, uma vez que hindus, budistas, muçulmanos - e até mesmo ateus - vivenciam experiências similares.

NADA ALÉM DA VIDA

Dizem que, para os ateus, não há nada além da vida e do entendimento humano. Mas é óbvio que não entendemos o universo completamente; e é ainda mais óbvio que nem a Bíblia nem o Alcorão refletem nosso melhor entendimento do universo. Não sabemos se há vida complexa em outro lugar do cosmos, mas pode haver. Se houver, esses seres podem ter desenvolvido uma compreensão das leis da natureza que excede a nossa.

Os ateus podem considerar essas possibilidades e admitir que, se existem extraterrestres, os conteúdos da Bíblia e do Alcorão serão para eles pouco impressionantes. Do ponto de vista ateísta, as religiões do mundo banalizam a verdadeira beleza e a verdadeira imensidão do universo. Não é preciso aceitar nada com base em provas insuficientes para fazer tal observação.

DOGMATISMO ATEÍSTA

Religiosos afirmam que suas escrituras só poderiam ter sido registradas sob orientação de uma divindade onisciente. Um ateu é simplesmente alguém que considerou esta afirmação, leu os livros e concluiu que ela é absurda. Não é preciso ser dogmático para rejeitar crenças religiosas injustificadas. Como disse o historiador Stephen Henry Roberts (1901-71): "Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender por que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá por que rejeito o seu."

Fonte: Estadão
http://www.estado.com.br/editorias/2007/01/07/ger-1.93.7.20070107.22.1.xml?

Texto original:
10 myths-and 10 Truths-About Atheism de Sam Harris.
http://www.samharris.org/site/full_text/10-myths-and-10-truths-about-atheism1/



sábado, 18 de novembro de 2006

Aceitar a Jesus

Os crentes me dizem que eu devo abrir meu coração a Jesus, que devo buscá-lo com fé, dar uma chance a ele. Quando digo que tentei isto por 40 anos, eles respondem que eu não fui sincero, que não me esforcei, que não fiz direito. E eles nem me conhecem ...

Alguns citam a história do mestre que segurou a cabeça do discípulo debaixo d'água enquanto este se debatia e depois lhe disse: "Você deve procurar a Deus com a mesma ânsia que procurou pelo ar".

Eu pergunto:
1. E se Deus não existir? E se estivermos procurando no escuro por um gato preto que não está lá?

2. E se Deus não quiser se revelar a nós ou apenas a alguns de nós?

3. A qual deus devo buscar? Por que os crentes pressupõem, como se fosse óbvio, que é o deles que eu vou encontrar?

4. Por quanto tempo devo esperar por uma resposta de cada deus antes de tentar o próximo?

5. O que eles querem dizer com "buscar com intensidade, de coração"? Qual é o método?
Será que me falta a capacidade de auto-ilusão que eles têm? Será que se eu me esforçar bastante volto a acreditar até em Papai Noel?

6. Por que Deus complica as coisas e se esconde de nós? Por que, supostamente, ele só se revela a quem já decidiu que ele existe? Se Deus realmente quer nos dizer alguma coisa, por que não se dirige a cada um de nós, sem intermediários, de forma clara e explícita? Por que temos que implorar por sua atenção?

7. Como é possível decidir "aceitar a Jesus" se não acreditamos nele? Não seria mais lógico que Deus nos aparecesse e só então acreditássemos? Será que os crentes não vêem o absurdo de "primeiro acreditar e só então ver as provas" ?

8. Como distinguir a manifestação de Deus da de uma outra entidade? Como saber que é o deus da Bíblia e não o de outra religião? Ou o diabo? Ou algum extra-terrestre poderoso?

9. Por que devo acreditar nos que me dizem ter "encontrado Jesus"? Que provas eles têm a me apresentar além do relato de "sentimentos" que podem não passar de alucinações ou ilusões auto-induzidas?

10. Por que os crentes sempre me abordam com um ar superior de quem traz uma revelação auto-evidente, diante da qual eu deveria cair de quatro e louvar o Senhor? Por que ficam tão irritados quando insisto em achar defeito e sugerir outras possibilidades, em exigir provas? Por que eles não enxergam a própria arrogância?

11. Como eles podem dizer que eu "rejeitei a Deus", que eu "troquei Deus pelos prazeres do mundo" ou que eu estou "revoltado com Deus" se eu não acredito nele?
Será que eu poderia me revoltar contra o saci-pererê?

Os crentes se fecham de tal maneira em seu limitado mundinho, sua visão estreita e suas explicações simplistas que não conseguem conceber que alguém pense diferente sem estar "rejeitando a Deus".
Não conseguem conceber que o mundo não gira em torno do cristianismo e que 2/3 da humanidade estão pouco se lixando para seu precioso "Jesus".

Quando questionados, se irritam e se assustam. Lembram-me as crianças que, ao perceberem que não têm argumentos, tampam os ouvidos e gritam: "Não estou ouvindo, não estou ouvindo!".

Eles são como R. R. Soares, chacoalhando a Bíblia diante das câmeras: "Se não está aqui, para mim não existe".

domingo, 27 de agosto de 2006

Religião é um problema mental?

Por que temos uma religião ou, pelo menos, a crença em algum deus?
Há dois motivos principais:

-A crença nos é imposta na infância, como uma lavagem cerebral.
-É aceita mais tarde, de forma aparentemente voluntária, em geral
num momento de dificuldade, e não numa decisão racional.

Quando a religião é imposta a uma criança, antes que seu pensamento crítico tenha se desenvolvido, encastela-se em um canto do cérebro e torna-se muito difícil de ser questionada mais tarde. A pessoa a aceita como um fato da vida, goste dela ou não.

Muitos cumprem os preceitos e os rituais sem nunca questionar, conscientemente, o que fazem. É uma obrigação, ponto final. Se a pessoa não fizer o que deve, "Deus castiga". Não há nenhum prazer envolvido, nenhum entusiasmo. "Deus" não é uma presença, um sentimento, é uma informação recebida. Se a informação revela-se falsa, a fé se vai sem fazer falta.

Outros, ao contrário, apóiam-se a sua crença como a uma muleta, assim como outros bebem ou se drogam. Buscam nela refúgio e consolo diante de seus problemas.
Chegam, em alguns casos, a "sentir" a presença de Deus, "ouvem" sua voz, desfrutam de êxtases místicos. Falam em "línguas", estrebucham no chão, supostamente tomados pela divindade.

Paulo, em suas epístolas, admite que a religião possa parecer loucura, mas se defende dizendo que Deus fez de loucos os sábios deste mundo e que a verdadeira sabedoria é a dos loucos em Deus. Da mesma forma, tribos primitivas viam nos loucos a marca de Deus e os respeitavam.

Experimente fazer uma pergunta simples: "Se você acredita pela fé, sem precisar de provas, como sabe que as outras religiões estão erradas se elas também não precisam de provas? Qual foi o seu critério para escolher uma religião entre tantas? "
Você não conseguirá nenhuma resposta coerente. E, se insistir na pergunta, a pessoa se irritará com você. Uma reação emocional em lugar de argumentos.

Entretanto:

-Pessoas com transtorno obsessivo compulsivo (TOC) procuram tratamento.
-Pessoas com cleptomania procuram tratamento.
-Pessoas que nunca conseguem chegar na hora a seus compromissos procuram tratamento.

Elas não se ofendem ao serem chamadas de doentes. Na verdade, sentem-se aliviadas ao perceber que não é um problema de caráter e que pode haver uma cura.

Não é à toa que existem tantos "Alguma Coisa" Anônimos pelo mundo.

Quando se trata de religião, entretanto, comportamentos ridículos e anormais são vistos como sinais de santidade e aceitos pela sociedade. Pessoas que dizem falar com Deus ou com os mortos são consideradas especiais e superiores.

Pessoas que se trancam em conventos, com voto de silêncio, pobreza e castidade, e passam o resto da vida isoladas, rezando para as paredes, são consideradas virtuosas.
Algumas, ainda mais "santas", fazem jejum, penitência, se auto-flagelam.

O que seria considerado um ataque epilético é visto como a possessão por um deus quando ocorre num templo. Milhares de adolescentes gritando e se descabelando diante de um artista famoso não passa de histeria coletiva, mas "Deus está operando" quando a gritaria acontece durante um culto. Dizer coisas incoerentes é sinal de problemas mentais - a menos que o fato se dê no contexto da religião, quando pode ser visto como "falar em línguas" ou mediunidade.

Quando a religião está envolvida, é considerado um insulto grave insinuar que essas pessoas possam estar malucas. Que possam ter algum problema mental. Que uma parte da mente delas está fora de seu alcance e controle.

Por que?
Qual a diferença?

Se muitas pessoas dizem que tiveram contacto com o sobrenatural, justifica-se uma investigação, só que nenhuma investigação até hoje mostrou nada.
A ciência já estudou o que ocorre no cérebro de budistas durante a "iluminação" ou de freiras em "êxtase místico" e localizou as partes envolvidas com o fenômeno. Em seguida, estimulou essas mesmas partes em voluntários, induzindo neles um sentimento de religiosidade. O mesmo já foi feito com a sensação de estar fora do corpo.
Deus pode ser ligado e desligado com um botão num laboratório?

A religiosidade pode ser apenas uma característica de nosso cérebro. Pode ter representado uma vantagem evolucionária no passado, ao unir as comunidades em torno de uma crença comum, ao lhes dar uma causa pela qual lutar e se sacrificar.
Entretanto, assim como outras características de nossos antepassados selvagens que abandonamos em nome da civilização, talvez seja hora de abandonar nosso respeito supersticioso pela religião e considerar seriamente a pergunta:

Seria a religião apenas um produto de nosso cérebro? Que, em excesso, não passa de uma doença?


domingo, 30 de julho de 2006

Detesto dar carona


Conheço muita gente que adora dar carona. Gostam de ter alguém com quem conversar, gostam de saber que terão ajuda em caso de enguiço ou pneu furado. Só que nem todo mundo é assim. Eu, por exemplo.

Quando dirijo, principalmente se o caminho é bem conhecido, mergulho em meus pensamentos e me desligo do mundo, a ponto de nem me lembrar do trajeto mais tarde. Ou então vou ouvindo música.

Com um carona, entretanto, sou obrigado a dar atenção a alguém. Perco minha privacidade e não posso me desligar e relaxar.
O carona insiste em puxar papo, em geral sobre assuntos que não me interessam, ainda que eu responda apenas com monossílabos para ver se ele se manca.

Eu não me ofereço para dar carona, são eles que se impõem. E, pelo seu comportamento, parece até que estão me fazendo um grande favor:

-Nunca aparecem na hora marcada. Se o combinado é 07:00, aparecem na maior tranquilidade às 07:20, dizendo que havia um grande engarrafamento no caminho. Só que isto acontece todos os dias e eles já deveriam saber que era para sair de casa mais cedo.

-Pior ainda se é você que tem que passar pela casa deles: nunca estão a postos na hora combinada e você tem que esperar em lugares inseguros ou se arriscando a uma multa, além de ser xingado por atrapalhar o trânsito e bloquear portas de garagem. E aparecem calmamente, falando ao celular, fazendo você se sentir como se fosse o motorista deles.

-O mesmo acontece na hora de voltar para casa: quando todo mundo já foi embora e só resta você no estacionamento, lá vêm eles dizendo que tiveram que atender a uma ligação de última hora ou que o chefe os segurou até mais tarde.

-Querem descer nos lugares mais inconvenientes, obrigando você a sair de seu trajeto e esperar com ônibus acelerando atrás de você ou carros buzinando enquanto eles recolhem seus cacarecos sem pressa. E depois tem que fazer malabarismos para retornar à sua pista (de onde nunca deveria ter saído).

-Querem abrir a janela ("Não gosto de viajar de janela fechada", dizem, como se fosse o gosto deles que importasse).

-Chegam fedendo a suor ou cigarro e empesteiam tudo. Alguns ainda têm a cara de pau de perguntar se podem fumar.

-Tossem, espirram, pigarreiam, batucam, cantarolam. Parecem ter horror ao silêncio.

-Caronas me obrigam a tirar as coisas do banco do passageiro, onde estão à mão, e passar tudo para o banco de trás, onde vão se perder no meio de outras coisas.

-Caronas pesam. E seu peso reduz o desempenho do carro, desgasta a suspensão e os pneus e aumenta o consumo de combustível, mas nunca lhes ocorre ajudar quando você vai abastecer, mesmo que tenham sido um peso morto a bordo por semanas a fio.

-Querem que você ligue o som quando você está a fim de silêncio. Se você liga, reclamam do seu gosto ou começam a puxar assunto sobre o que você está ouvindo (impedindo-o de ouvir...). Se há mais de um chato, conversam entre si. Se você aumenta o volume para tentar ouvir alguma coisa, falam mais alto ainda para abafar (motivo pelo qual não ligo mais o som quando tenho caronas).

-Caronas insistem em mexer em tudo: na posição do banco, na regulagem da ventilação, abrem e fecham a janela, dão puxões violentos no cinto de segurança e acabam estragando alguma coisa. Claro que nunca se oferecem para lhe pagar: "Pô, foi mal, aí. Ih, lá vem meu ônibus, tchau!".

Mas será que não há no mundo alguém que você gostaria de ter a seu lado? Claro que sim, só que:

-Já tem carona.
-Já tem carro.
-Mora em outro bairro ou o horário é diferente.

Pode ser que um dia, finalmente, aquela pessoa especial precise da sua carona. Instantaneamente, algum chato se materializa do nada, dizendo: "Aí, hoje eu vou com você!".
Note que ele não pergunta se pode ir, ele afirma que vai, confortável na intimidade que julga ter conquistado com as outras vezes em que estragou sua viagem.
E vai tratar de exibir esta intimidade ao longo do trajeto, se metendo na conversa, se comportando como se seu carro fosse a casa dele.

Não adianta reclamar, não adianta dizer, explicitamente, o que você pensa dele. Chatos são imunes a críticas. Vão rir na sua cara e responder, sorridentes: "Eu sei que você não está falando de coração! Você sente a minha falta!"

Aaaarrghh!!

sábado, 24 de junho de 2006

Riqueza e pobreza



O pobre não é pobre porque existe o rico. Na verdade, o pobre só não é mais pobre justamente porque existe o rico.
O dinheiro que vai para o bolso do rico não é um dinheiro que saiu do bolso do pobre. É um dinheiro novo, que só passou a existir devido ao trabalho do rico.

Defender a distribuição forçada das riquezas é cair no erro de achar que a quantidade total das riquezas de um país é constante e que tende a se acumular nas mãos de uns poucos. Pelo contrário, novas riquezas são constantemente geradas pelo trabalho e o que acontece é que alguns estão mais capacitados a gerá-las e acumulá-las do que outros.

Se tirarmos dos ricos para dar aos pobres, em pouco tempo os ricos voltarão a ser ricos e os pobres voltarão a ser pobres. Ou, o que é pior, os ricos irão embora, em busca de um país que valorize seu trabalho produtivo e respeite seu direito à propriedade legitimamente obtida, deixando os pobres ainda mais pobres.
É melhor que os pobres comam as migalhas que caem da mesa dos ricos que não haja migalhas por não haver ricos.

A estatística mostra que mais de 90% dos ganhadores de loterias volta a ser pobre com o tempo, ou seja, eles não sabem usar o dinheiro para gerar dinheiro, sabem apenas gastá-lo. Os ricos são aqueles que sabem gerar riquezas novas.

Existem, é claro, os parasitas que, sem produzir nada, vivem às custas dos que trabalham, mas este não é necessariamente o caso dos empresários, por exemplo. Para gente assim, existe a lei. A maioria dos empresários, pelo contrário, cria empregos e permite a sobrevivência dos que não têm a capacidade de serem, eles mesmos, empresários. Não importa se eles criarem suas empresas pensando apenas em seu próprio benefício; o que importa é que, para o bem de todos, eles existem.

Há também o problema dos que nascem tão pobres que não têm a chance de fazer nada, mas, para isto, existem os impostos, através dos quais os ricos ajudam o governo a dar chances iguais a todos através de condições mínimas de educação, segurança e saúde.

A desigualdade social não é um problema em si. Reflete apenas o fato de que as pessoas são diferentes em suas capacidades e ambições. Pelo contrário, a desigualdade pode ser até um sinal da vitalidade de uma sociedade, de que é possível progredir.

Não é a desigualdade que deve ser combatida e sim a falta de oportunidades e a extrema miséria. Deve-se garantir a todos uma vida digna e a chance de progredir pelo próprio esforço, e não tentar acabar com as diferenças.


"Os
socialistas, e em especial os marxistas, sempre pensaram que existia um
estado natural de abundância. Nada mais simples, portanto, que a
economia de Robin Hood: tirar dos ricos para dar aos pobres."
- Roberto Campos


Fernando Silva