quarta-feira, 22 de março de 2023

Minha desconversão

 Sou um ex-católico e minha desconversão foi um processo lento e indolor se comparada às histórias traumáticas que a gente encontra na Internet. Minha família era, e ainda é, profundamente católica, mas a religião nunca foi baseada no terrível medo do Inferno. Tampouco nos disseram que não temos nenhum valor diante de Deus e que a “salvação” é para poucos.

 Na parede das salas de aula dos colégios religiosos onde estudei, havia um quadrinho com a inscrição “Deus me vê”, tipo um Big Brother, mas o descreviam como um deus benevolente e que perdoava. Era realmente preciso insistir em ir para o inferno (embora eu não entendesse por que alguém faria isso).

No entanto, era preciso ir à missa todos os domingos e, todo dia à noite, nos ajoelhávamos em casa para rezar o terço, sem falar nas orações antes de dormir, confissões frequentes e aulas de religião.

Até meus 12 anos, eu me sentia confortável com minha fé. Não gostava de ir à igreja, não gostava de rezar o terço, mas, em geral, o assunto não me incomodava.

Eu tinha longas discussões comigo mesmo em que a parte racional da minha mente tentava explicar as coisas de forma racional enquanto que a parte religiosa apelava para a fé. Por longos anos, os debates terminavam em “Bom, deve haver uma explicação, mas eu sou muito limitado para entender. Quando eu morrer e for para o céu, tudo ficará claro”.

Por exemplo, sempre me incomodou que “é melhor acreditar sem ter visto do que ver e só então acreditar”. Ou que crianças que morrem sem ser batizadas vão para um lugar mal definido chamado Limbo em vez de direto para o Céu. Ou que Jesus teve que morrer por causa dos meus pecados (isto me fazia sentir culpado, de certa forma, embora eu não entendesse que pecados seriam esses).

Disseram-nos que acreditar em Adão e Eva e nas histórias do Gênesis não era obrigatório; foi apenas o jeito que Deus usou para explicar as coisas a nossos ancestrais primitivos. Entretanto, o “Pecado Original” era um dogma (e eu não consegui entender como eu poderia já nascer culpado por alguma coisa que eu não tinha feito). Tentava não pensar muito a respeito, mas sentia que havia algo de estranho quanto aos profetas e seus escritos divinamente inspirados. Por que a inspiração parou? Como saber se aquilo tudo era verdade? Eu tinha que confessar meus pecados frequentemente – e esperava-se que eu me arrependesse sinceramente deles e estivesse firmemente disposto a não pecar mais. Só que eu sabia muito bem que acabaria fazendo tudo de novo, mais cedo ou mais tarde.

Esta certeza só cresceu quando veio a adolescência e minha mente vivia cheia de pensamentos “impuros”. Eu passava algum tempo torturado por sentimentos de culpa até ter a coragem de confessar tudo. Saía de lá me sentindo limpo e começava a “pecar” novamente. Depois de repetir este ciclo por muitos anos, concluí que confessar não fazia sentido. E, como eu não tinha me confessado, não podia comungar. Um dia, me dei conta de que já fazia mais de dez anos que eu não me confessava nem comungava. Por sorte, eu ia à missa sozinho e minha família nunca percebeu.

Nota: se vocês aí não forem católicos, talvez não façam ideia de quão ridículo e desagradável é a confissão. Ou seja, ajoelhar-se diante de um completo estranho e lhe sussurrar seus pensamentos mais íntimos na esperança de que ele não ache que você foi longe demais para merecer a absolvição. Daí, ele vai sussurrar de volta no seu ouvido, com perdigotos e mau hálito, conselhos padronizados e uma lista de orações para rezar como penitência. Senhoras idosas, entretanto, parecem gostar disso. Deve ser, para elas, um psicanalista gratuito. Uma plateia cativa, disposta a ouvir todos os seus probleminhas e preocupações. Como tendem a ser meio surdas, falam alto demais e as pessoas em volta têm que fingir que não estão escutando.

Eu tinha um livro de orações em que cada uma era acompanhada de seu valor em indulgências, ou seja, se você rezasse uma oração de “um dia”, seu tempo no Purgatório seria reduzido de um dia. Havia algumas que valiam semanas e mesmo meses, portanto eu só rezava estas e me perguntava por que perder tempo com as de um dia e por que elas faziam parte do livro.

Também me disseram que eu deveria me sentir emocionado, arrebatado, durante a missa, já que ela era a renovação do sacrifício de Jesus na cruz. Por alguma razão, tudo o que eu sentia era tédio (e culpa por esse tédio).

Bem, a lista poderia continuar indefinidamente. Entretanto, minha fé nunca vacilava. A religião era, para mim, um fato da vida assim como escovar os dentes. Muito chata, certamente, mas necessária e inevitável.

Além disto, eu não tinha contato com o ateísmo. Sabia que existiam descrentes e outras religiões, mas nunca fui exposto a ideias racionais. Uma única vez, quando eu tinha uns 10 anos, li algo num jornal sobre a possibilidade de os discípulos terem roubado o corpo de Jesus do túmulo para dar a impressão de que ele tinha ressuscitado. Nada de mais. Na verdade, uma citação dos evangelhos, mas eu fiquei tão chocado que a ideia foi enterrada na minha mente e só voltou à superfície décadas depois. Até onde eu conseguia perceber, havia pecadores, mas não havia contradições. O que me diziam em casa era confirmado na escola, nas ruas, nos jornais, na TV.

As dúvidas que a parte sã da minha mente vivia trazendo à tona eram rapidamente varridas para baixo do tapete e esquecidas. Eu vivia numa espécie de “Show de Truman”, sem nenhuma esquisitice para me fazer suspeitar de que minha fé fosse uma ilusão. Por outro lado, embora assumisse minha fé sem problemas em família, eu tinha vergonha de me assumir como católico em público. Quando perguntavam qual a minha religião, eu resmungava algo como “sou católico, eu acho”. Entrava na igreja pela porta lateral, menos visível. Fazer proselitismo nem me passava pela cabeça.

Embora eu acreditasse na firmeza da minha fé, eu achava desconfortável impingi-la aos outros. Não me parecia ter nada de convincente o bastante para lhes dizer, portanto deixava para lá. Como eu não entendia por que eu acreditava, não conseguia defender minhas convicções, embora nem pensasse em rejeitá-las.

Lá pelos meus vinte e tantos anos, vivendo em meio a pessoas com uma religião bem menos estrita que a minha, concluí que elas não estavam fazendo mal a ninguém e, por não acharem que aquilo que faziam era pecado, não iriam para o Inferno. Eu, por outro lado, não podia fazer como eles porque era pecado para mim e eu seria castigado por Deus.

Aos 12 anos, veio o primeiro golpe sério. O papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano II e, tendo ele a mente mais aberta que seus antecessores, as pessoas começaram a discutir e reavaliar tudo. Ele morreu antes que o concílio terminasse e seu sucessor, Paulo VI, um conservador, tentou frear o movimento. Entretanto, seguiu-se um período de livre experimentação e muitas coisas mudaram. Parte dos católicos rejeitou as novidades e cismas deram origem a facções, algumas até negando a autoridade dos papas a partir dali. Minha família não gostou muito dessas ideias, mas seguiu em frente. Na minha cabeça, entretanto, a Rocha Inabalável de 2 mil anos tinha se rachado. Tentei não pensar muito a respeito, mas a semente da dúvida foi plantada.

Passei a procurar igrejas com padres mais velhos, que resistiam às mudanças na liturgia. Por volta dos meus 40 anos, as igrejas pentecostais, até então uma minoria no Brasil, começaram a proliferar e a atrair católicos. Outros católicos reagiram criando o Movimento Carismático para atraí-los de volta. Eu achava os pentecostais ridículos, mas os carismáticos, uma caricatura dos pentecostais, eram ainda pior.

Vi tais inovações como um desrespeito à tradição e me irritavam tanto que, inicialmente, eu passava a missa tentando pensar em outras coisas e cochilava durante os longos e chatos sermões. As músicas já não podiam mais ser chamadas de hinos. Eram acompanhadas por bandas com guitarras e percussão e pareciam inspiradas no Xou da Xuxa. A audiência (não mais a assembleia) dançava e batia palmas. Bem diferente dos hinos solenes acompanhados de órgão e incenso da minha infância.

Canções bobinhas e letras tolas que tentavam transmitir mensagens “bonitinhas”. A palavra “amor” era repetida tantas vezes ao longo da missa que perdia o sentido e me irritava.

Uma das coisas que eu detestava era ter que dar as mãos às pessoas de cada lado enquanto cantávamos o Pai Nosso. Eu até gostaria se fossem meninas bonitas, mas, por alguma razão, meninas bonitas pareciam ter coisas melhores a fazer que ir à missa, portanto eu acabava segurando a mão de outros homens. Acabou que eu passei a sair do meu lugar e ficar no corredor quando chegava esse momento. Não adiantava cruzar os braços e fingir que estava distraído. Eles ficavam me cutucando e insistindo em segurar a minha mão.

Durante o sermão, o padre sussurrava com uma voz de “latin lover” e, de repente, começava a gritar. Eu detestava sua voz fingida, detestava seus gritos. Cheiravam a motivação, a lavagem cerebral. E eu detesto técnicas de motivação. Se ele precisava de tais truques, talvez sua mensagem não fosse tão convincente assim.

Dava para suportar as missas chatas dos padres mais velhos. Pelo menos, não eram revoltantes. Mas os padres jovens sempre vinham com novas ideias para “animar” a celebração e incentivar a participação de todos. Aos poucos, eu comecei a fazer o, até então, impensável: ir à missa, mas ir embora quando via que era um padre novidadeiro. Ao longo de 40 anos, eu nunca tinha faltado a uma missa e agora deixava de assistir uma depois da outra. Eu dizia a mim mesmo: “Bom, eu tentei. Vim até a igreja. Mas não tenho que aturar isto”.

A partir daí, ficou mais fácil encarar minhas dúvidas. Passei a questionar o que ouvia em vez de tentar cochilar. Anotava minhas ideias e as coisas que me pareciam absurdas. Um dia, sentei-me ao computador e comecei a desenvolver as anotações num documento que cada vez ficava maior.

Eu ainda me via como católico, mas a ideia de inferno, por exemplo, parecia-me inaceitável. Se realmente houvesse um inferno, estaria vazio. Também era contra a proibição do controle da natalidade. Qual o problema moral com pílulas e camisinhas? Por que tínhamos que continuamente louvar a Deus por suas supostas bondades? Que bondades? Com que direito ele tinha me jogado neste vale de lágrimas sem perguntar se eu aceitava? Por que eu tinha que me submeter a um teste que eu não tinha pedido, sendo que, se fracassasse, seria eternamente punido?

Por que tinha que acreditar num deus que nunca vi só porque algumas pessoas diziam que ele existia? Por que ele não se dirigia diretamente a mim e me dizia o que queria? Por que havia tantas religiões, todas elas se declarando a única verdadeira?

Eu ainda não estava pronto para abandonar a fé, mas comecei a achar que os ensinamentos de Jesus tinham sido mal interpretados pela Igreja ao longo dos séculos. Na época, eu conhecia muito pouco da Bíblia exceto pelos trechos lidos durante as missas. O Antigo Testamento não era importante, para fins de doutrina, e o Novo Testamento parecia mais ou menos coerente.

O que acelerou o processo foi encontrar na Internet, por acaso, um site dedicado à Deusa Mãe e sobre como a sociedade patriarcal tinha pervertido a humanidade. Havia longos textos dedicados aos deuses e deusas da Babilônia e como eles tinham originado Yaveh, o deus dos judeus. Esta frase foi fundamental: “Tendemos a achar que Yaveh se manifestou aos hebreus em algum ponto de sua história, mas, na verdade, ele é uma mistura dos vários deuses que eles encontraram e adotaram ao longo de sua vida nomádica. Ele pode ser rastreado até El, o deus de Ur onde Abraão nasceu. Mas ele também é Asherah ou Ishtar e muitos outros, todos somados. Isto porque os hebreus não eram monoteístas. Embora se comprometessem a adorar apenas a Yaveh, eles aceitavam a existência dos outros deuses. Em troca desta adoração exclusiva, Yaveh lhes daria proteção contra os outros povos e seus deuses”.

O texto também citava passagens da Bíblia em que Deus se dizia com ciúme dos outros deuses, além de seus atos e comandos violentos e sanguinários. Achei isto interessante e comecei a pesquisar o assunto mais a fundo.

Também descobri que não estava sozinho. Durante séculos, houve ateus e eles tiveram ideias que nunca tinham me ocorrido. Percebi que a história da Igreja Católica não era nada santa. A Inquisição e as Cruzadas me apareceram sob nova luz. A Bíblia se mostrou um livro violento, cheio de sangue e contradições, escrita por tribos bárbaras da Idade do Bronze, não algo inspirado por Deus. Ou seja, nada de “O livro bom”.

Finalmente, o peso acumulado do que eu tinha descoberto e dos meus próprios pensamentos tornou impossível continuar fingindo para mim mesmo que eu ainda era católico. Não foi repentino e sim mais como um lento despertar, em que sonho e realidade coexistem por algum tempo. Mas é difícil abandonar velhos hábitos e eu ainda sentia que tinha que ir à missa todos os domingos. Não queria cortar esse último laço. Certo domingo, entretanto, já pronto para sair, desabou uma chuva forte. Eu parei para pensar e decidi que não queria enfrentar chuva e vento para chegar à igreja e ficar por uma hora todo molhado naquele lugar quente, lotado e abafado, ouvindo baboseiras que só me irritavam. Não fui naquele dia e nunca mais fui.

Lembro-me de que, naquele dia, eu me sentei e perguntei: “Então é isso? Toda uma vida indo à igreja, todas aquelas missas e orações e sentimentos de culpa … acabaram-se? Tudo aquilo em que eu acreditava?”

Não foi traumático, apenas a melancolia de perceber que algo havia terminado para sempre, algo com que eu estava tão acostumado. Não senti falta de Deus. Eu tinha rezado para ele todos os dias porque achava que era obrigatório e pedido favores na esperança de que ele talvez me ouvisse, mas nunca tive nenhuma ligação emocional. Ele tinha sido sempre um estranho, distante e silencioso (mas sinto falta de Papai Noel …).

Encontrei muitos sites ateus na Internet, muitos fóruns com debates interessantes. Toda essa riqueza de fatos e ideias e eu tinha passado 42 anos da minha vida na mais completa ignorância!

Preferi não dizer nada à minha família. Eles não entenderiam e poderia haver conflitos. Além disto, meus pais já eram idosos e com problemas de saúde. Não vi motivos para estressá-los. E também porque, para eles, a fé era confortadora. Mesmo nos piores momentos de seus problemas de saúde, eles diziam coisas como “Se eu aceito as coisas boas que Deus me manda, tenho que aceitar também as ruins”. Ou “Jesus sofreu tanto por mim! Eu quero compartilhar seu sofrimento”. E assim por diante. Eu não queria tirar isto deles (e nem conseguiria). Não queria angustiá-los no fim de suas vidas.

Quanto às outras pessoas, no início, espantado com minhas descobertas – e também com raiva por ter me deixado enganar por tanto tempo – eu queria contar para todo mundo, despertá-los, fazê-los ver o óbvio. Tive longas conversas com gente religiosa na Internet e com colegas de trabalho. Foi muito instrutivo e me ajudou a refinar meus argumentos, mas também me mostrou que eu era uma exceção.

Um crente que está feliz com sua fé não se desconverterá. Se eles acreditam em que dois mais dois são cinco, podemos no máximo fazê-los admitir que a resposta parece ser quatro, sim, mas isto apenas porque nosso entendimento é limitado demais para percebermos as razões superiores pelas quais a resposta é cinco. Esta “explicação” vai aliviar qualquer susto que tenhamos lhes causado e eles ficarão felizes de novo. Se insistirmos, eles vão despejar coisas sem sentido tiradas da Bíblia e nos dizer que é melhor nos arrependermos antes que seja tarde. As perguntas embaraçosas serão ignoradas, como se estivéssemos falando com um surdo.

Também é perturbador quando algum conhecido, até então perfeitamente razoável, entra para uma seita pentecostal e aparece com uma bíblia em baixo do braço distribuindo folhetos de sua igreja. Assusta ver quão certos eles estão de sua fé. Há algo de lunático em sua calma convicção. O tipo de loucura que faz pessoas jogarem aviões contra prédios.

Publicado originalmente na seção de “Deconversion Stories” do site “Positive Atheism”.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Movimento Modernista - Quando a Igreja Católica deu um tiro no pé

Na segunda metade do século 19, a Inquisição já não assustava ninguém. Foi a época em que Darwin publicou suas teorias sobre a evolução das espécies que contradiziam a Bíblia. Foi a época em que, usando a lógica para se analisarem obras clássicas como “A Ilíada” à luz dos conhecimentos históricos e geográficos disponíveis, cidades como Troia foram localizadas e desenterradas. Isto levou arqueólogos, historiadores e outros intelectuais a analisar todo e qualquer documento antigo em busca de segredos escondidos. Inclusive a Bíblia, que até então estivera mais ou menos protegida da contestação.
 

Trecho do livro “A Inquisição” - Michael Baigent & Richard Leigh - Editora Imago

Capítulo 12 - O Santo Ofício

Se se achava particularmente vulnerável no mundo secular, porém, a Igreja julgava-se recém-armada e equipada em outras esferas. A doutrina da infalibilidade papal fornecia, quando nada, um baluarte aparentemente inexpugnável contra os avanços e invasões da ciência. Para os fiéis, pelo menos, a infalibilidade se antecipava e impedia qualquer debate. Embora a Igreja não derrotasse a adversária, era poupada de ser derrotada ela própria, por ser impedida de ao menos entrar na arena. Para os católicos devotos, a infalibilidade papal constituía uma nova “rocha” contra a qual a maré da ciência, lançada pelo demônio, só podia quebrar-se em vão.

Contra a ciência, a Igreja podia assim empenhar-se numa contínua série de ações de contenção. Contra os outros principais adversários no mundo das ideias - isto é, contra as pesquisas dos estudos históricos, arqueológicos e bíblicos - acreditava que podia passar à ofensiva. Essa convicção ia levar ao vexaminoso embaraço do Movimento Modernista católico.

O Movimento Modernista surgiu do desejo específico de enfrentar as depredações causadas na escritura por comentaristas como Renan, e pelos estudos bíblicos alemães. Com o Modernismo, a nova Igreja Militante - uma Igreja Militante na esfera da mente - tentou lançar uma contraofensiva. Os modernistas destinavam-se originalmente a empregar o rigor, a disciplina e precisão da metodologia alemã, não para contestar a escritura, mas para defendê-la e apoiá-la. Uma geração de estudiosos católicos foi trabalhosamente formada e preparada para fornecer ao Papado o equivalente a uma força de ataque acadêmica, um quadro determinadamente formado para fortalecer a verdade literal da escritura com toda a artilharia pesada das mais atualizadas técnicas e procedimentos críticos. Como os dominicanos do século XIII e os jesuítas do século XVI, os modernistas foram mobilizados para lançar uma cruzada que recuperasse território perdido.

Para frustração e humilhação de Roma, porém, o tiro da campanha saiu pela culatra. Quanto mais a Igreja se esforçava por equipar os jovens clérigos com os instrumentos necessários ao combate na moderna arena polêmica, mais esses mesmos clérigos passavam a desertar da causa para a qual haviam sido recrutados. O meticuloso escrutínio da Bíblia revelou uma pletora de discrepâncias, inconsistências e repercussões alarmantemente inimigas do dogma oficial - e lançou a doutrina da infalibilidade papal numa luz cada vez mais dúbia. Antes que qualquer um compreendesse o que se passava, os próprios modernistas já haviam começado, com suas dúvidas e questões, a corroer e subverter as posições mesmas que deveriam defender. Também passaram a contestar a centralização de autoridade da Igreja.

Assim, por exemplo, Alfred Loisy, um dos mais famosos e respeitados modernistas, perguntou publicamente como ainda se podia sustentar certas doutrinas de Roma na esteira da pesquisa bíblica e arqueológica contemporânea. “Jesus proclamou o advento do Reino”, afirmou Loisy, ecoando o Grande Inquisidor de Dostoiévski, “mas o que adveio foi a Igreja.”’ Ele demonstrou que muitos pontos do dogma se haviam cristalizado como reações historicamente determinadas a acontecimentos específicos, em lugares e épocas específicos. Não deviam, portanto, ser vistos como verdades fixas e imutáveis, mas, na melhor das hipóteses, como símbolos. Segundo Loisy, premissas básicas da doutrina cristã como o Parto Virgem e a divindade de Jesus não eram mais sustentáveis como acontecimentos literais.

Em 1893, Loisy foi demitido de seu cargo de professor, mas isso não resgatou a situação porque ele continuou vociferante e prolífico. Em relação a Loisy e a seus colegas modernistas, a Igreja estava no dilema do incendiário preso no prédio a que ele próprio ateou fogo. O modernismo não era mais apenas embaraçoso. Demonstrava uma capacidade de tornar-se verdadeiramente perturbador e destrutivo.

Em 1902, nove meses antes de morrer, o Papa Leão XIII criou a Pontifícia Comissão Bíblica, para supervisionar e controlar a obra dos estudiosos católicos da escritura. Oficialmente, a tarefa da Comissão era “lutar... com todo o cuidado possível para que as palavras de Deus.., sejam escudadas não apenas de qualquer bafejo de erro, mas até mesmo de qualquer opinião precipitada”.2  Era assegurar que os estudiosos “se esforcem por salvaguardar a autoridade da escritura e promover sua correta interpretação”.3

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

A "sabedoria dos antigos"

Povos primitivos inventaram historinhas fantasiosas para explicar o universo.
Ao longo dos milênios, tais historinhas foram modificadas, adaptadas, distorcidas e reinterpretadas, às vezes se incluindo elementos de outras historinhas.

No século XXI, algumas pessoas procuram significados ocultos nesta bobajada se julgando muito superiores àqueles que a veem como simples superstições de povos primitivos.

A velha crença em que os antigos tinham uma sabedoria fantástica que se perdeu ou foi preservada por ordens iniciáticas secretas. Que textos que sobreviveram a civilizações desaparecidas contêm vestígios de conhecimentos avançados.

Não adianta o místico apelar para uma vida dedicada ao estudo da "sabedoria dos antigos", desprezando os que pouco ou nada conhecem sobre Jacob Boehme, Hermes Trismegisto ou Helena Blavatsky.

Estudar a fundo o assunto torna a pessoa um expert, mas não significa que ela tenha como provar que é verdade ou se baseia em fatos.

E, enquanto não provar, o leigo não terá motivos para reconhecer sua autoridade.

Por exemplo, não adianta um teólogo esfregar seu diploma de teologia na cara do descrente dizendo "Quem é você para me questionar?!!"

O mais sensato será ignorar essa gente.

Citar grandes filósofos é a "falácia da autoridade". Só porque eles tiveram algumas boas ideias, não significa que acertaram em tudo. Eles partiam do princípio de que havia um conhecimento ou entidade superior a serem descobertos e entendidos. Já eu, apesar de não excluir a hipótese de que possam existir, não vejo necessidade de perder meu tempo com elucubrações inúteis sobre coisas imaginárias.

Afinal, quer haja algo ou não, será inalcançável e incompreensível.

Uma hipotética revelação irrefutável feita por tal entidade será apenas uma ilusão.
Apenas aquilo que ela quer que vejamos e pensemos, não a realidade.
Que, de qualquer modo, estaria fora de nosso alcance.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

O rebelde anti-romano que inspirou o personagem Jesus

 Este texto defende a ideia de que os fatos descritos no NT no início dos anos 30 aconteceram, na verdade, do final dos anos 40 em diante.

https://www.researchgate.net/publication/342872663_Jesus_and_the_Egyptian_Prophet

Os evangelistas teriam baseado Jesus na figura de um rebelde conhecido como o "Profeta Egípcio" e teriam deslocado os acontecimentos para  10 a 20 anos antes, mudando os personagens envolvidos. Eles atribuem, por exemplo, os atos de Felix, procurador de 52 a 59dC, a Pilatos. Segundo Flavio Josefus, foi Felix que mandou os soldados ao Monte das Oliveiras para prender o Profeta Egípcio, que tinha reunido lá seus seguidores anunciando que dali destruiria as muralhas de Jerusalém e abriria o caminho para a invasão. Isto explicaria a passagem onde Jesus diz aos discípulos para vender o que fosse preciso e comprar espadas e também o fato de que foram enviados 1000 soldados para prender um pacífico profeta e alguns poucos de seus seguidores.

Assim como Jesus, o "Profeta Egípcio" veio do Egito (onde teria se tornado um mago) e apareceu, de repente, já com 30 anos.


Há ainda documentos dos Pais da Igreja, como Ireneu ou Victorinus de Pettau, que afirmam que Jesus viveu mais que 50 anos. São Jerônimo diz, em seu livro "Dos homens ilustres":

    "In the commentaries of Victorinus among other things these are also written: “I found in parchments of Alexander the bishop, who was in Jerusalem, which he transcribed with his own hand from exemplars of the apostles, thus: ‘The Lord Jesus Christ was born on December 25 in the consulate of Sulpicius Camerinus [in 9 AD]. He was baptized on January 6 in the [second] consulate of Valerius Asiaticus [in 46 AD]. Truly his passion was on March 25 in the third consulate of Nero and [the first of] Valerius Messala [in 58 AD]."

E o próprio Jerônimo diz que Jesus estava vivo nos tempos de Claudio (41-54 dC).

É possível que os evangelistas tenham tentado desvincular Jesus das rebeliões contra os romanos e disfarçado algo que eles não podiam, na época, dizer abertamente.

Outros indícios:

Mateus 15:33-38 e Marcos 08:04-09, no milagre da multiplicação de pães e peixes, falam que Jesus esteve com quatro mil homens no deserto.

Em Atos 21:38, perguntam a Paulo se ele não é "aquele rebelde egípcio":
"Não és tu porventura aquele egípcio que antes destes dias fez uma sedição e levou ao deserto quatro mil salteadores?"

Assim como Jesus, o Egípcio passou um tempo no deserto.
Ambos falam em derrubar as muralhas de Jerusalém (Lucas 19:43-44).
Ambos viveram no Egito.
Ambos são descritos como líderes messiânicos com muitos seguidores.
Ambos são vistos como ameaça pelas autoridades.
O Egípcio foi derrotado no Monte das Oliveiras, onde Jesus foi preso.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Considerações a respeito da existência de Deus e as religiões

O que podemos afirmar sobre Deus? 

 Não é possível garantir que Deus não existe porque seria no mínimo necessário procurar em todo o universo físico, do macro ao micro, para então afirmar que ele realmente não existe em nenhum lugar. 

Não é possível saber que Deus existe porque, se você encontrá-lo, não teria como saber se ele é realmente Deus e não outra coisa como, por exemplo, um ser com poderes além de nossa compreensão. 

Para confirmar que Deus está em toda parte, é preciso estar em toda parte também.

Para confirmar que Deus é onisciente, é preciso ser onisciente também.

Para confirmar que Deus sempre existiu, é preciso ter sempre existido também.

E como confirmar que Deus é eterno e nunca terá fim?

Para podermos saber que algo é realmente Deus, precisaríamos ser o próprio Deus.

Se Deus é infinito e todo poderoso como afirmam as principais religiões, então ele é incompreensível. Se ele existir, qualquer coisa que digamos a seu respeito será perda de tempo e, provavelmente, incorreta. O que significa que todas as religiões são besteira. Mesmo que ele exista e se mostre a nós, não estaremos vendo a ele e sim a uma representação que nossa infinitamente limitada inteligência pode entender. 

Mesmo que ele nos diga alguma coisa, não teremos como tirar conclusões a seu respeito e de suas intenções. Não podemos dizer "Deus é bom e justo". Não sabemos quais os seus critérios de bondade e justiça. Se ele nos condenar a uma eternidade de sofrimento, não teremos como dizer que ele é cruel. 

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Qualquer coisa que um "místico" ou "espiritualista" afirme sobre uma suposta dimensão espiritual é invenção dele ou de outros como ele. Apenas divagações sobre coisas que não temos como entender e nem mesmo sabemos se existem. 

Apenas o reflexo daquilo que eles acham que deveria existir, do jeito que eles imaginam que deveria ser. Ter estudado a fundo as divagações de outros, antigos ou não, nada muda. 

Alegar inspiração divina ou intensas experiências místicas, menos ainda. Alegar que as coisas do espírito estão além da capacidade da ciência materialista só confirma que não sabem do que falam. Afinal de contas, estão usando um cérebro puramente material (e não podem provar o contrário). 

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Afirmar que Deus existe, mas é indetectável pela ciência não resolve o problema. Mesmo porque seria necessário provar que ele é indetectável, não apenas afirmar como axioma. Além disto, se ele é indetectável, nada pode ser dito a seu respeito, portanto as religiões são baseadas em rigorosamente nada. 

Não me venham com essa de "Nosso lado espiritual consegue sentir a Deus" porque o tal "lado espiritual" também é delírio e igualmente indetectável. Por outro lado, se fosse detectável, seria assunto da ciência, mas, se permanecesse incompreensível, as religiões continuariam a não fazer sentido. 

E se ele se manifestasse a cada um de nós, claramente? Continuaria incompreensível. Talvez decidíssemos obedecer por medo do castigo e cobiça da recompensa, só que continuaríamos sem saber se ele cumpriria suas promessas.

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Não podemos nos basear em nossos conceitos humanos e limitados do que é bom e belo. Deus, se existir, está além da nossa compreensão. Talvez ele nos pareça um monstro porque não temos como entender seus propósitos e princípios. 

É contraditório uma religião afirmar que seu deus é infinito e, ao mesmo tempo, tentar limitá-lo àquilo que ela pode conceber. É arrogância afirmar seja lá o que for sobre um deus que, por definição, é incognoscível. 

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Mesmo que exista algum deus e ele decida se mostrar a nós, o que veremos será apenas uma representação, apenas um avatar. Ou um fantoche. Algo adequado às nossas infinitamente limitadas percepção e compreensão. 

Ou seja, aquilo que veremos não será esse deus. E o que ele nos dirá certamente não será a verdade, mas aquilo em que ele achou que seria conveniente que acreditássemos. Ou então uma porção tão infinitamente pequena da verdade que será o mesmo que nada. 

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Se uma entidade superpoderosa nos aparecer se dizendo Deus, o que podemos pedir a ela como prova do que afirma? Não sei. Nem mesmo sei definir o que seja um deus. Talvez essa entidade faça coisas que nos pareçam impossíveis, milagrosas, mas apenas porque nossos conhecimentos são limitados. 

Na verdade, o único poder que essa entidade precisa ter é o de nos convencer de que é Deus. Mesmo que não seja. 

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Se me perguntarem se acredito em Deus, responderei: "Qual deus?"
Há milhares de deuses, cada qual com sua religião e dezenas, centenas ou milhares de seitas.
Não há motivo para escolher um deles e rejeitar os outros.

Ninguém se senta e analisa cuidadosamente todas as opções antes de se decidir por uma.
A "escolha" é fruto do acaso: a família ou país em que a pessoa nasceu, um momento de desespero que a leva a entrar no templo mais próximo ou a torna vulnerável a uma doutrinação, motivos estéticos ou culturais etc.

Nenhuma religião apresenta evidências de que seu deus é o verdadeiro (e que os outros são falsos). Por mais que aleguem testemunhos, milagres, profecias realizadas ou escrituras inspiradas por algum deus, todas se baseiam em fé.

Talvez exista um deus/deusa/entidade sem gênero definido (afinal, por que um deus seria macho ou fêmea?), mas, diante da absoluta falta de motivos para escolher um, o mais sensato é ignorá-lo.

Se comprovadamente existir, mas não tivermos como saber o que ele espera de nós, qualquer coisa que fizermos poderá estar certa ou errada. Mais uma vez, o mais sensato será ignorá-lo.

Se algum dia uma entidade se dirigir a mim diretamente e conseguir provar que é um deus, então decidirei o que fazer a respeito. Talvez até aceite obedecê-lo, por medo ou por convencimento, mas isto não significa que vou amá-lo.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

A Bíblia permite a poligamia

Lameque casou-se com Ada e Zilá (Gênesis 4:19)

Abraão era casado com Sarah, mas também traçava a escrava Hagar e tinha concubinas (Gênesis 16:03 e 25:06)

Naor teve mulher (Milca) e concubina (Reumá) (Gênesis 22:23-24)

Jacó casou-se com Rachel e sua irmão Lia. E ainda traçava as escravas Bilah e Zilpah (Gênesis 29:27, 30:03 e 30:09)

Esaú casou-se com Ada, Aolibama e Basemate (Gênesis 36:02-03)

Timna era concubina de Elifaz (Gênesis 36:12)

Moisés casou-se com Zipporah, uma medianita e ainda com uma cushita sem nome (Êxodo 02:21 e Números 12:01)
 
O herói Gedeão tinha muitas esposas e uma concubina (Juízes 08:30)

Elcana casou-se com Ana e Penina (1 Samuel 01:02)

Saul tinha uma concubina (2 Samuel 21:11)

O grande David teve esposas e concubinas (2 Samuel 05:13 e 19:05)

Salomão, o sábio, teve 700 esposas e 300 concubinas (1 Reis 11:03)

Se um homem tiver duas esposas, as duas terão os mesmos direitos (Êxodo 21:10)

O rei não deve tomar muitas mulheres (Deuteronômio 17:17)

Herança para o primogênito no caso de duas mulheres (Deuteronômio 21:15)

Ter um harém é permitido, mas não casar com duas irmãs (Levítico 18:18)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Quem acredita nessas coisas,
 
acha que uma é linda e que a outra é ridícula.